segunda-feira, maio 14, 2007

O Salmão

Em uma atitude um tanto egocêntrica, não costumo colocar nos meus blogs coisas que não são escritas por mim. Abro aqui uma meia exceção; já que meramente traduzi um texto.

Como viajar com um salmão
(Comment voyager avec un saumon- Umberto Eco- Tradução Livre)
Se formos considerar os jornais, nossa época é assombrada por dois grandes problemas: a invasão dos computadores e a inquietante expansão do Terceiro Mundo. É verdade, e disso eu fui testemunha.

Há pouco tempo, eu fiz uma breve viagem; um dia em Estocolmo e três em Londres. Em Estocolmo, tive tempo de comprar um salmão defumado enorme a um preço irrisório. Cuidadosamente embalado em um plástico, me aconselharam, já que estava de viagem, a conservá-lo em local fresco. Falar é fácil.

Felizmente, em Londres, meu editor havia reservado uma suíte de luxo equipada com um frigobar. Chegando ao hotel, tive a impressão de estar numa ruela de Pequim durante a revolta dos Boxers.

Famílias acampando no sagüão, viajantes escondidos em sacos de dormir, descansando sobre suas bagagens... Eu me informo com os empregados, todos indianos ou malaios. Eles me respondem que, no dia anterior, o hotel havia sido dotado de um novo sistema informatizado, que por conta de uma queda de energia havia entrado em pane duas horas atrás. Isso tornava impossível saber se os quartos estavam livres ou ocupados. Teria que esperar.

No final do meio-dia, o computador consertado, eu pude enfim entrar no meu quarto. Preocupado com o salmão, tirei este da minha mala e me pus à procura do dito frigobar.

Normalmente, os figobares dos hotéis comuns contêm duas cervejas, duas garrafas de água mineral, umas mini-garrafas de uísque, uma pequena variedade de sucos de fruta e dois sacos de amendoim. O do meu hotel, de dimensões gigantescas, tinha cinqüenta mini-garrafas de uísque, gin, Drambuie, Courvoisier, Grand Marnier e outros licores, oito garrafas de Perrier, duas de Badoit, duas de Évian, três garrafas de champanhe, várias latas de stout ou pale-ale, de cerevejas holandesas e alemãs, vinho branco italiano e francês, amendoins, amêndoas, chocolates, biscoitos salgados e alka-setzer. Nenhum lugar para o meu salmão. Dois grandes armários estavam à minha disposição: coloquei neles todo o conteúdo do frigobar, guardei meu salmão e não me preocupei mais. No dia seguinte, meu monstrengo jazia na mesa e o frigobar estava entulhado com produtos de qualidade. Eu abro os armários e constato que tudo que eu havia guardado continuava lá. Eu ligo para a recepção e peço para informar aos responsáveis pelo serviço de quarto que eles encontram o frigobar vazio não por eu consumir tudo, mas por causa de um salmão. Me respondem que esta informação deve ser dada ao computador central pois os empregados não são anglófonos e, por conta disso, podem apenas receber instruções em Basic.

Abri dois outros armários para transferir o conteúdo do frigobar, no qual enseguida eu guardei o salmão. Dia seguinte, às quatro horas, o animal descansava na mesa e começava a exalar um cheiro suspeito.

A geladeira transbordava de garrafas e latas etílicas. Quanto aos armários, eles lembravam o cofre de um mafioso nos tempos da lei seca. Eu ligo novamente para a recepção e me dou conta de que eles tiveram uma nova pane no sistema informatizado. Eu tento explicar meu caso a um sujeito com os cabelos presos em um coque: infelizmente, ele falava um dialeto que, de acordo com o que me explicou um colega antropólogo, era utilizado somente no Kefiristão na época em que Alexandre, o Grande celebrava suas bodas com Roxane.

Na manhã seginte, eu fui fechar a conta. Ela tinha um valor astronômico! Aparentemente, em dois dias e meio eu havia consumido vários hectalitros de Veuve Cliquot, dez litros de uísques diversos, incluindo alguns maltes muito raros, oito litros de gin, vinte e cinco litros de Perrier e Évian, algumas garrafas de San Pellegrino, mais suco de fruta que o necessário para manter em vida todas as crianças da UNICEF e uma quantidade de nozes e amêndoas que faria vomitar o legista encarregado pela autópsia dos personagens de La Grande Bouffe. Eu tentei me explicar mas o empregado sorridente, dentes escurecidos pelo betel, me assegurou de que o computador havia registrado tudo aquilo. Pedi um advogado. Me trouxeram um abacate.

Meu editor está furioso e acha que eu sou louco. O salmão foi pro lixo. Minha família disse que eu deveria beber menos.

(ECO, Umberto, 1986/1997 - Comment Voyager avec un Saumon - Nouveaux pastiches et postiches, Éditions Grasset)
NOTA: Pensei que esse texto não tivesse sido publicado por aqui mas acabei de descobrir que ele está num livro chamado "O segundo diário mínimo". Soubesse disso, provavelmente não teria tido o trabalho...

3 comentários:

Sonja disse...

Raphael,
Que bom que vc teve o trabalho pois assim o Gui me enviou esse texto e eu pude me deliciar...

Abracos.

Dom Rafa disse...

que bom que você gostou!
Obrigado pela visita!

liliagf disse...

sim, o texto está no segundo diário, mas de qualquer maneira, é ótimo encontra-lo na versão digital. Esse livro de Eco é dos meus favoritos. obrigada e um abraço

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...